Principais desafios para uso da PI como garantia de financiamentos no Brasil

Por que os ativos de Propriedade Intelectual ainda não “viram” garantia para obtenção de crédito no Brasil? Mapeamos, com base no estudo OMPI/MDIC/INPI, os entraves e caminhos práticos para o chamado “IP Finance” avançar.

Transformar propriedade intelectual (PI) em garantia real é uma via promissora e, simultaneamente, muito desafiadora para destravar crédito na economia brasileira. A análise a seguir se baseia no relatório Série Desbloqueio do IP Finance: Trajetória do Brasil, desenvolvido por OMPI, MDIC e INPI, que mapeia, com precisão, as barreiras e os caminhos de implementação no país.

O quadro geral é conhecido por quem opera inovação: a lei permite o uso de ativos de PI, como marcas, patentes, etc, como bem móvel e, portanto, como colateral ou garantia; o ecossistema avança em políticas, integração e fomento; mas a prática de crédito emperra em três pontos estruturais — valoração, liquidez e maturidade operacional.

Some‑se a isso o enquadramento das normas vigentes, como IFRS 9/e CPC 48 Res. CMN 4.966, que exigem abordagens robustas de avaliação, incluindo o conceito de Valor Presente Provável de Realização (VPPR)

Valoração: o primeiro gargalo (e como reduzi‑lo)

Segundo o relatório OMPI/MDIC/INPI, o problema não é escassez de metodologias, e sim a aplicação consistente, transparente e adequada à finalidade (garantia, M&A, licenciamento etc.). O documento recomenda combinar abordagens de custo, de renda (fluxo de caixa/royalties) e de mercado (comparáveis), calibradas ao estágio tecnológico (p. ex., TRL), ao setor e ao modelo de monetização. A meta é estimar um valor aplicável e executável, que resista a auditoria, a variações macro e a contingências jurídicas.

O que ajuda na prática (lado empresa):

Nuances por tipo de ativo importam: marcas tendem a maior estabilidade (renováveis) e liquidez potencial; patentes podem perder valor nos anos finais de proteção; desenhos industriais sofrem com obsolescência. A valoração precisa refletir essas dinâmicas.

Liquidez: sem mercado secundário, não há garantia “boa”

Para o credor, uma boa garantia é aquela que vira dinheiro de forma rápida e previsível em caso de inadimplência. Em PI, o mercado secundário extremamente restrito gera escassez de dados de comparáveis, de contratos‑padrão, e referências em geral, o que aumenta a incerteza o risco de falta de liquidez.

Ainda que existam operações lastreadas em recebíveis de royalties e estruturas híbridas que combinam colaterais tangíveis e intangíveis, é claro que o ecossistema ainda é incipiente.

O relatório aponta três alavancas para elevar a liquidez:

  1. Padronização contratual e trilhas de execução (penhor/alienação, registro de ônus, cessão de recebíveis), com publicidade e interoperabilidade de bases.
  2. Leilões especializados de PI e bases públicas de transações para formar preço e apoiar métodos “de mercado”.
  3. Securitização de royalties com cessão fiduciária de recebíveis, reduzindo volatilidade e encurtando a “ponte” até o caixa.

Prudencial e provisões: o que trava o “sim” do banco

Mesmo com a Lei de Propriedade Industrial e a Lei de Direitos Autorais, que reconhecem a PI como bem móvel passível de garantia, o enquadramento de Basileia e a Resolução CMN 4.966 (IFRS 9/CPC 48) exigem mensurar perda esperada, VPPR e liquidez para reconhecer mitigação de risco.

Em resumo: sem valoração robusta e mercado secundário, a PI não gera capital relief, tornando o crédito mais caro e, muitas vezes, inviável.

Uma solução sistêmica que poderia ser explorada é algum tipo de : fundo garantidor especializado em PI, com governança técnica (crédito, jurídico, tecnologia e valuation), capaz de compartilhar risco, padronizar análises e reduzir custo de capital das operações com intangíveis.

Estruturas desse tipo poderiam aumentar a elegibilidade da garantia, viabilizando apetite de risco e criando trilhas de execução que alimentam o próprio mercado secundário.

Maturidade de gestão: estratégia de PI como meio e não como fim

A transformação dos resultados do P&D em ativos formais de PI não é necessariamente critério de sucesso, e não deveria ser visto como objetivo principal. Temos visto Empresas que integram a gestão do portfolio de PI às estratégias de mercado acabam tendo ativos mais resilientes e “bancáveis”. O estudo destacou a importância de:

O que já existe e o que falta escalar

Há avanços importantes: descontos do INPI para MPMEs e ICTs; programas de FINEP com cláusulas de PI e pontuação por portfólio; integração INPI‑FINEP‑CONFAP; aceleração do BNDES Garagem (com análise qualitativa de PI); e casos reais de gravame fiduciário sobre marcas e de operações com recebíveis de licenciamento.

Mas, tendo em vista benchmarks internacionais, há a possibilidade de ir além: exigir depósito de PI e análise de informação tecnológica nos projetos financiados com recursos públicos; e massificar a educação executiva para bancos, empresas e NITs, gerar incentivos fiscais para projetos financiados com o uso de PI como garantia, entre outros.

6 alavancas para destravar o IP Finance no Brasil

Considerando Benchmarks internacionais e a visão de especialistas, o estudo propõe 6 alavancas para acelerar o uso de ativos de PI como garantias de financiamento no Brasil.

  1. Fundo garantidor de PI (modelo público‑privado) para reduzir perda esperada e alavancar apetite bancário.
  2. Padrões de valoração por finalidade (garantia, M&A, licenciamento), com guias setoriais e critérios por TRL.
  3. Mercado secundário: dados de transações, leilões de PI, registro público de ônus e templates de execução.
  4. Crédito lastreado em royalties (cessão fiduciária) e colaterais híbridos (tangíveis + intangíveis).
  5. Fast‑track regulatório e prioridades de exame para casos com impacto econômico.
  6. Educação executiva para times de crédito, CFOs e NITs, alinhando risco, governança e métricas de valor.

Estudos de caso que iluminam a prática

Conclusão — do potencial à execução

O Brasil tem os ingredientes: base legal, produção científica, ICTs ativas e instrumentos de fomentono entanto ainda há desafios que não são de simples solução. O ideal seria encontrar formas de:

Esses são os desafios práticos que aprofundamos neste artigo — sequência direta do primeiro texto da série do ILUPI. Para quem deseja avançar com base técnica, o ILUPI colaborou na análise do cenário brasileiro no Relatório Global da OMPI/MDIC/INPI, que traz diagnóstico detalhado e caminhos possíveis para o desenvolvimento do IP Finance no país.

No próximo artigo da série, vamos aos números: As estatísticas sobre a PI no Brasil — evolução de depósitos, perfil dos titulares e o que isso significa para crédito e investimento.

Por que os ativos de Propriedade Intelectual ainda não “viram” garantia para obtenção de crédito no Brasil? Mapeamos, com base no estudo OMPI/MDIC/INPI, os entraves e caminhos práticos para o chamado “IP Finance” avançar.

 

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